O tema aponta três realidades para as quais não existe definição única: HOMEM, FELICIDADE e REMORSO. Conhecer conceitos mínimos destas realidades é condição indispensável para o entendimento do que está dito no tema. As várias áreas do saber humano, por causa da especificidade de cada uma delas e, ainda, conforme a influência que recebam das ideologias, poderão defini-las e conceituá-las diversamente. Todavia, a proposição do tema é que o remorso estorva a felicidade, embora não seja este o único inimigo da felicidade humana. Resta saber, depois de conhecidos os significados de homem, felicidade e remorso, como evitar este último, já que se revela inimigo da felicidade humana.
Remorso, começando pela ordem crescente de importância, é o sentimento de pesar por um erro praticado. Não se deve confundir remorso com arrependimento. Este é mudança de atitude em relação à um ato praticado. Aqui o homem deseja não ter feito o que fez; se pudesse, retroagiria no tempo para refazer ou desfazer o ato. Aquele, é o pesar, a tristeza, que surge geralmente em função das conseqüências do erro praticado. O homem pode arrepender-se tanto por um erro que cometeu, quanto por um bem que tenha feito. Mas só sentirá o remorso quando seus atos produzirem conseqüências danosas ou o expuserem ao vexame público.
Felicidade, numa definição pobre, é o sentimento de prazer, de alegria, que resulta de se ter sido bem sucedido em algum empreendimento. Embora pobre, esta é uma definição ampla, pois abrange concepções subjetivas, haja vista que o que pode ser motivo de felicidade para uns, pode não ser para outros. Duas características da felicidade são efemeridade e fragilidade. É efêmera porque os fatos que a produzem não são perenes, como também não o é o homem nesta dimensão da vida. É frágil por causa de sua temporalidade e, principalmente, por causa da maldade enraizada no coração dos homens que os leva a agir egoisticamente.
Quanto ao homem, diremos inicialmente que é um ser de sentimentos, em razão de se ter dito que felicidade e remorso são sentimentos e se hospedam no homem. Mas, consideremos o que dizem algumas ciências. Para a Sociologia o homem é um ser de relações; para a Psicologia, um ser de interações; para a Filosofia, um ser que pensa; para a Teologia, um ser de fé.
Convém distinguir entre Teologia e Religião. Religião, um fenômeno social geralmente institucionalizado, tem como escopo a reconciliação entre o homem e Deus e o culto expressado na oração e adoração. Já a Teologia se propõe, como ciência, estudar a respeito de Deus e explicar suas obras (inclusive o homem) e suas relações com estas. É importante conhecer o que dizem essas ciências porque seus postulados lançam luz à compreensão da proposição do tema em foco.
Diremos agora que o homem é um ser capaz de atuar inteligentemente sobre a natureza e entre seus semelhantes; capaz de experimentar as sensações, em forma de sentimentos, dos resultados de sua atuação e, ainda, capaz de encontrar refúgio infalível quando todas as evidências se mostrarem contrárias ao seu bem. Finalmente, é um ser em busca da felicidade.
Como evitar o remorso? Sem dúvida alguma é evitando errar, já que remorso é o sentimento de pesar decorrente de um erro praticado. O homem deve lembrar-se que não está só no mundo e que, por isso mesmo, seus atos produzirão reflexos no meio social onde ele vive. Por outro lado, sua capacidade de sentir poderá cobrar-lhe as conseqüências de seus atos através do remorso e da turbação de sua consciência, para não falar em outros dissabores. E o homem é um ser que pensa. Por este recurso ele pode, no presente, reviver o passado e projetar o futuro. Assim deve refletir suas ações e agir como ser inteligente que é, evitando sentimentos e motivações mesquinhos que podem levar a erros e destes advir o remorso. É, portanto, feliz, o homem que não tem remorsos, pois se trata de pessoa consciente, ponderada, que pensa, julga e conhece que faz parte de um organismo – a sociedade – onde o bem-fazer de cada um é requerido para a felicidade de todos e, por isso, reflete seus atos antigos, suas decisões presentes e age inteligentemente.
Caso o erro não tenha sido evitado, restam ainda três recursos para o homem: confissão, reparação e perdão. A confissão sempre é possível; a reparação, entretanto, nem sempre. Nesse caso só o perdão poderá aplacar a fúria do remorso. Foi por isso que invocamos o testemunho da Teologia. Segundo esta ciência, como já foi dito, o homem é um ser de fé. É, pois, pela fé, mediante arrependimento e confissão sinceros, que o homem obtém perdão para seus erros e sua consciência fica em paz, deixando livre o canal do sentimento para o curso da felicidade.
Bem, sendo o homem um ser social, complexo em suas ações e reações, mas que pensa e pode ter fé, o remorso não lhe é obstáculo intransponível; pois, com o uso da razão pode medir seus atos e suas conseqüências, dirigindo-os para o bem coletivo (já que vive em sociedade). Mas, quando sua consciência despertar com os alaridos do remorso a dissipar-lhe a felicidade, a fé – desde que precedida pelo arrependimento e confissão sinceros – abrir-lhe-á o caminho do perdão pelo qual ficará livre do remorso e terá de volta sua felicidade.
E assim,
FELIZ É O HOMEM QUE NÃO TEM REMORSOS !